domingo, 10 de fevereiro de 2008

QUADRILHA

João que amava Teresa
que amava Raimundo
que amava Maria
que amava Joaquim
que amava Lili que não amava ninguém
João foi pra os Estados Unidos,
Teresa para o convento
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se
e Lili casou com J.Pinto Fernandes
que não tinha entrado
na história.
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

Quase

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda,que me entristece,que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga,quem quase passou ainda estuda,quem quase morreu está vivo,quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos,nas chances que se perdem por medo,nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me,às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna;ou melhor,não me pergunto,contesto.A resposta eu sei dar de cor:está estampada na distância e frieza dos sorrisos,na frouxidão dos abraços,na indiferença dos 'Bom-dias',quase que sussurrados.Sobra covardia e falta de coragem até pra ser feliz.
A paixão queima,o amor enlouquece,o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor,sentir o nada.Mas não são.Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo,o mar não teria ondas,os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina,não inspira,não aflige nem acalma,apenas amplia o vazio que cada uma traz dentro de si.
Não é que a fé mova montanhas,nem que todas as estrelas estejam ao alcance.Para as coisas que não podem se mudadas,resta-nos somente paciência;porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão;pros fracos,chance;pros amores impossíveis,tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque,que a rotina acomode,que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.Gaste mais horas realizando que sonhando,fazendo que planejando,vivendo que esperando,porque,embora quem quase morre estaja vivo,quem quase vive já morreu.
(Sara Westphal)

Por que no Brasil não há terrorismo

Documentos mantidos em sigilo pela Polícia Federal revelam que a Al Qaeda,organização terrorista de Osama Bin Laden,ordenou a execução de atentado no Brasil.O alvo da ação seria a estátua do Cristo Redentor,localizada no alto do morro do Corcovado e um dos símbolos mais conhecidos do Rio de Janeiro,tanto no Brasil quanto no exterior.
De acordo com informações obtidas em Brasília,a ordem de Bin Laden decorreu do ódio que o saudita nutre por festas monumentais,como o carnaval carioca,para ele 'um símbolo da globalização da sem-vergonhice'.Demolidor de ídolos e iconoclasta como os talibãs que explodiram estátuas de Buda no Afeganistão,ele destacou dois mujahedins para seqüestro e uso de avião,que seria lançado contra a estátua,a seu ver 'símbolo dos infiéis'.
Os registros da Polícia Federal dão conta que os dois terroristas chegaram ao Aeroporto Internacional Tom Jobim em 22 de setembro,domingo,às 21:47h,no vôo da Air Canadá procedente de Montreal,com escala em Miami.A missão começou a sofrer embaraços já no desembarque,quando a bagagem dos mulçumanos foi extraviada.Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichês e dificuldade de comunicação em virtude do inglês fortemente marcado por sotaque árabe,os dois saíram do aeroporto,aconselhados por funcionários da Infraero a voltar no dia seguinte,com intérprete.
A Polícia Federal investiga a possibilidade de eles terem apanhado um táxi pirata na saída do aeroporto,pois o motorista percebeu que eram estrangeiros e rodou uma hora e meia,dando voltas com eles pela cidade,até abandoná-los em lugar ermo na Baixada Fluminense.No trajeto,ele parou o carro e três cúmplices os assaltaram e espancaram.Eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondidos em cintos próprios para transportar dinheiro e pegaram carona num caminhão que entregava gás.
Na segunda-feira,às 7:33h,graças ao treinamento de guerrilha que receberam nas cavernas do Afeganistão e nos campos minados da Somália,os dois terroristas conseguiram chegar a um hotel de Copacabana.Alugaram um carro na Hertz e voltaram ao aeroporto,determinados a seqüestrar logo um avião e jogá-lo bem no meio dos braços abertos do Cristo Redentor.Enfrentaram um congestionamento monstro por causa de uma manifestação de estudantes e professores em greve e ficaram três horas parados na avenida Brasil,na altura de Manguinhos,onde seus relógios foram roubados em um arrastão.
Às 12:30h,resolveram ir para o Centro da cidade e procuraram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares.Receberam notas de cem reais falsas.Por fim,às 15:45h chegaram ao Tom Jobim para praticar o seqüestro.Os pilotos da Varig estão em greve por mais sálario e menos horas de trabalho.Os controladores de vôo também pararam (querem equiparação com os pilotos).O único avião na pista é da Vasp,mas está sem combustível.Foi fretado pela Soletur.Aeroviários e passageiros estão acantonados na sala de espera e nos corredores do aeroporto,tocando pagode e gritando slogans contra o governo.O Batalhão de Choque da PM chega batendo em todos,inclusive nos terroristas.
Os árabes são conduzidos à delegacia da Polícia Federal no aeroporto,acusados de tráfico de drogas,em face de flagrante forjado pelos policiais,que plantaram papelotes de cocaína nos bolsos dos dois.Às 18 horas,aproveitando o resgate de presos feito por um esquadrão de bandidos do Comando Vermelho,eles conseguem fugir da delegacia em meio à confusão e ao tiroteio.às 19:05h,os mulçumanos,ainda ensangüentados,se dirigem ao balcão da Vasp para comprar passagens.Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os vôos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado.Eles,então,discutem entre si:começam a ficar em dúvida se destruir o Rio de Janeiro,no fim das contas,é um ato terrorista ou uma obra de caridade.
Às 23:30h,sujos,doloridos e mortos de fome,decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto.Pedem sanduíches de churrasco com queijo e limonadas.Só na terça-feira,às 4:35h,conseguem se recuperar da intoxicação alimentar de proporções eqüinas,decorrente da ingestão de carne estragada usada nos sanduíches.Eles foram levados para o Hospital Miguel Couto,depois de terem esperado três horas para que o socorro chegasse e percorresse diversos hospitais da rede pública até encontrar vaga.No HMC,foram atendidos por uma enfermeira feia e mal-humorada.
Eles teriam de esperar dois dias para serem examinados,se não fosse pelo cólera causado pela limonada feita com água contaminada por coliforme fecal.Debilitados,só terão alta hospitalar no domingo.
Domingo.18:20h:os homens de Bin Laden saem do hospital e chegam perto do estádio do Maracanã.O Vasco acabara de perder para o Bangu,por 6x0.A torcida cruzmaltina confunde os terroristas com integrantes da galera adversária e lhes dá uma surra sem precedentes.O chefe da torcida é um tal de Pé de Mesa,que abusa sexualmente deles.Às 19:45h,finalmente,são deixados em paz,com dores terríveis pelo corpo,em especial na área mais delicada.Ao verem uma barraca de venda de bebidas nas proximidades,decidem se embriagar uma vez na vida,mesmo que seja pecado.Tomam cachaça adulterada com metanol e precisam voltar ao Miguel Couto.
Segunda-feira,23:42h:os dois terroristas fogem do Rio escondidos na traseira de uma caminhão de eletrodomésticos,assaltado horas depois na Serra das Araras.Desnorteados,famintos,sem poder andar e sentar,eles são levados pela van de uma ONG ligada a direitos humanos para São Paulo.Viajam deitados de lado.
Na capital,perambulam o dia todo à cata de comida e por volta das 20 horas acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja na rua Aurora,Centro.A Polícia Federal não revelou o hospital onde os dois foram internados em estado grave,depois de espancados quase até a morte por um grupo de mata-mendigos...
(Autor Desconhecido)

domingo, 27 de janeiro de 2008

Ainda que mal
¨ Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insita,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor. ¨
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

CANÇÃO DAS MULHERES “Que o outro saiba quando estou com medo,e me tome nos braços sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta,mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude,e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba a minha fragilidade e não ria de mim,nem se aproveite disso. Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim,porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa,ou doente,ou agressiva,nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta que me dói a idéia da perda,e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida,não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa. Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles,o outro não desconfie logo que é culpa dele,ou que não o amo mais. Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice,mas sem fazer alarde nem dizendo “Olha que estou tendo muita paciência com você!”. Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua,nem me chame de ingênua,nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim,por mais tola que lhe pareça. Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas,o outro não me exponha e nem me ridicularize. Que quando levanto de madrugada e ando pela casa,o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “Mas que chateação essa sua mania,volta pra cama!”. Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo : “Pôxa,mais um?”. Que se eu eventualmente perco a paciência,perco a graça e perco a compostura,o outro ainda assim me ache linda e me admire. Que o outro – filho,amigo,amante,marido – não me considere sempre disponível,sempre necessariamente compreensiva,mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso. Que,finalmente,o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço,não sou,nem devo ser,a mulher-maravilha,mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte,incapaz e gloriosa,assustada e audaciosa – uma mulher.” (Lya Luft)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

De Ressaca

"Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo. Cada porre era um desafio ao céu e às suas fúrias. E elas vinham — Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais — às golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconsequentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre o cubaubre e o meu instinto de autopreservação. O cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte. Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos 30, "nunca mais" dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que o cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem. Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um AlkaSeltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava em casa nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka- Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam. Por exemplo: Um cálice de azeite antes de começar a beber — O estômago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber. Tomar um copo de água entre cada copo de bebida — O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida. Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta — Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodea, tinha-se um Bloody Mary, mas isto era para mais tarde um pouco. O sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene — Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés na direção da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira. Uma cerveja bem gelada na hora de acordar — Por alguma razão, o método mais popular. Canja — Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar, no entanto. Muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham que ser socorridos às pressas antes do afogamento. Minha experiência maior é com o cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no depósito de instrumentos da boate Catito's em Assunção. A pior ressaca era de gim. Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma. Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia. Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora. Ressaca de cachaça. Você acordava, sem saber como, de pé, num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto. Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Konrad Adenauer e estava piscando para você. Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia. Ressaca de conhaque. Você acordava lúcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do Universo. A chave de tudo estava no seu cérebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentanto arrombar a sua caixa craniana. Você sabia que era alucinação, mas por via das dúvidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro. Hoje não existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e não acontece nada. No dia seguinte estão saudáveis, bem-dispostas e fazem até piadas a respeito. De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se saúdam em silêncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros caídos e nosso heroísmo anónimo. Estivemos no inferno e voltamos, inteiros. Mais ou menos. Um brinde. E um Engov."
(Luis Fernando Verissímo)
"VERSOS ÍNTIMOS
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão -- esta pantera -- Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente invevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! o beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!"
(Augusto dos Anjos )
"Prezada Mulherzinha, Se existe alguém que pode falar o que vou falar para você, sou eu. Então, por favor, tenha a humildade de admitir que sei o que estou falando. Pois o que eu te direi é duro, mas poderá te fazer um bem enorme. Chega. Chega de se comportar assim. Como se estivesse lutando pelo posto de rainha da bateria. De Miss Maravilha do Mundo. Basta de ataques, dessa competitividade suburbana eu sou a melhor, eu sou a mais alta, eu sou a mais gostosa do pedaço. Ninguém tá ligando a mínima se você corre 10 quilômetros ou se aplicou Botox nessa sua testa sem expressão. Ou se você é assim porque ainda não passa de uma menininha que quer ser mais perfeita do que a mãe, conquistar o amor do pai e ser a primeira da classe. Esse teu afã psicopata de vencer todas as paradas só te deixa ridícula. E me faz querer usar um termo que odeio: coisa de mulherzinha. Mulherzinha é que tem essa mania de estar sempre desconfiada das amigas, porque todas teriam inveja do seu corpão e do seu cabelão estilo falso-loiro-natural-cinco-tons. Lamento informar, querida, que ninguém sente inveja de você. Por isso, chega de dizer por aí que, para não atrair olho grande, é bom ficar de bico fechado sobre a tal possível promoção que você terá no trabalho. Relaxa, ninguém está a fim de ser você. Tente, portanto, ser você com mais leveza. E lembre-se: esse negócio de dizer que não se pode confiar em mulheres só comprova que você é uma pessoa maliciosa. Sendo que isso está longe de ser porque você é fêmea. Quando vejo você tagarelando sobre seus feitos sexuais, sinto-me num filme ruim sobre ginasianas americanas. Todas fanhas e excitadas. Chega, tá? De azucrinar os outros com essa sua boca-genital lambuzada de gloss, cuspindo baixos-clichês, simulando uma modernidade que você não tem. Nunca mais caia no ridículo de fazer "sexo casual" com nenhum tipo de homem, mais velho ou mais novo, casado ou solteiro, porque todo mundo já sabe que você finge tudo. Que goza, que não se sente fácil, que não liga quando os caras não telefonam no dia seguinte. Seja honesta uma vez na vida: confesse. Que você não é nada tão wild quanto se vende. Que não sabe falar tão bem inglês assim. Que fez escova progressiva. Que tem dermatite. E enfim você terá alguma paz, pois se reconhece humana, e não a barbie boba que você procura ser. Acredite: idiotice só te faz charmosa para os cafajestes. Se continuar assim, nunca vai aparecer aquele cara bacana que você gostaria que aparecesse; para lutar por você, até te conquistar, e destruir essa tua linda silhueta com uma gestação de 15 quilos. É triste, amiga Mulherzinha, mas você terá que abrir mão da máscara de rímel que cobre a sua verdade."
(Fernanda Young)

O que nós queremos deles

"Mas afinal, o que querem as mulheres de um homem? O que nós queremos? Em primeiro lugar, que ele nos ame muito; muito, mas não exageradamente. Que nos entenda, que nos ouça sempre com muita atenção, mesmo que não esteja muito interessado no que estamos falando (mas fingindo estar). Não, ele não precisa nos trazer flores; mas deve estar sempre nos procurando, fazendo um carinho no nosso ombro, pousando (apenas pousando) a mão na nossa coxa por debaixo da mesa ou quando estiver dirigindo o carro, coisa de quem se sabe dono absoluto do nosso coração (e do nosso corpo); só faz isso um homem seguro, que é o que todas queremos.Por outro lado, é preciso que ele nos solicite muito, pergunte que gravata deve usar, se gostamos da água-de-colônia nova, que carro deve comprar, mesmo que acabe fazendo o que quer, sem dar a mínima para nossa opinião. Mas também é preciso que às vezes fique quieto, calado, para nos deixar bem inquietas, imaginando no que será que ele está pensando. Mulher não pode nunca se sentir nem muito segura nem muito insegura: tem que ser no ponto certo. O ponto certo, essa é a questão. Para isso é preciso sensibilidade, coisa fundamental no homem que se ama. Sensibilidade para sentir quando estamos precisando de um carinho, de um amasso ou de ficar em silêncio. E ser capaz de, na hora de uma briga, dizer vem cá, sua boba", e a gente se aninhar nos braços dele esquecendo de tudo que estava falando. Ah, como é bom um homem assim. Não é preciso que ajude a lavar os pratos nem a arrumar a cozinha, essas bobagens a gente faz com o maior prazer quando ama. Mas a cada cinco minutos pode perguntar, enquanto assiste o futebol (sem tirar os olhos da TV), se ainda vai demorar muito essa arrumação, pedir para você levar uma cerveja e dizer "vem sentar do meu lado para ver o jogo". Esse jogo não nos interessa nem um pouco, mas saber que ele precisa de nós num momento tão crucial é tudo de que precisamos para ser felizes. E quando o time dele fizer um gol e ele comemorar te abraçando e beijando muito, seja solidária e mostre-se tão feliz como se tivesse acabado de ganhar o mais lindo vestido da última coleção de Valentino. Não basta ser mulher: tem que participar. A hora de ir para a cama é muito importante: mesmo que ele esteja estudando um processo ou lendo uma revista em quadrinhos, é fundamental que ponha a perna em cima da sua, para que você sinta que, aconteça o que acontecer, ele estará sempre ligado em você. E um homem que quer ser amado sobre todas as coisas não pode jamais, mas jamais, depois de apagar a luz do abajur, se virar de costas para dormir; isso é crime que nenhuma mulher perdoa. E quando, já no escuro, ele faz um carinho na sua cabeça e se encaixa - não há mulher que resista a um homem que sabe se encaixar bem -, aí é que você sente a felicidade total e pensa que é aquele homem, aquele e nenhum outro, que pode fazê-la feliz. É só isso que queremos dos homens. Não é pedir muito, é? "
(Danuza Leão)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O que se passa na cama

"(O que se passa na cama é segredo de quem ama.) É segredo de quem ama não conhecer pela rama gozo que seja profundo, elaborado na terra e tão fora deste mundo que o corpo, encontrado o corpo e por ele navegando, atinge a paz de outro horto, noutro mundo: paz de morto, nirvana, sono do pênis Ai, cama, canção de cuna, dorme, menina, nanana dorme a onça suçuarana, dorme a cândida vagina, dorme a última sirena ou a penúltima... O pênis dorme, puma, americana fera exausta. Dorme, fulva grinalda de tua vulva. E silenciem os que amam, entre lençol e cortina ainda úmidos de sêmen,estes segredos de cama."
(Carlos Drummond de Andrade )