( ARNALDO JABOR in : Amor é prosa sexo é poesia)
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Meu avô foi um belo retrato do malandro carioca
ESTE TEXTO É sobre ninguém. Meu avô não foi ninguém. No entanto, que grande homem ele foi para mim. Meu pai era severo e triste, mal o via, chegava de aviões de guerra e nem me olhava. Meu avô, não. Me pegava pela mão e me levava para o Jockey, para ver os cavalinhos. Foi uma figura masculina carinhosa em minha vida. Se não fosse ele, talvez eu estivesse hoje cantando boleros no Crazy Love, com o codinome Neide Suely.
Meu avô, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 40/50. Era um malandro carioca – em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de pérola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex, o chapéu-palheta, o relógio de corrente, seu Patek Phillipe tão invejado, em volta dele ressoava a língua carioca mais pura e linda, com velhas gírias [Essa matula do Flamengo é turuna(forte)..] Meu avô era orgulhoso de viver nesta cidade baldia e amada, o Rio que soava nos discos de 78 rpm, nas ondas do rádio, o Rio precário e poético, dos esfomeados malandros da Lapa, das mulheres sem malho e de seus sofrimentos românticos, entre varizes e celulite. Antes de morrer, ele me olhou, já meio lelé, e disse a frase mais linda: "É chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu nunca mais vou à avenida Rio Branco" . Ali, onde ele me levava para tomar refresco na Casa Simpatia, era o centro de seu mundo. Os políticos canalhas populistas que estão hoje aí querem a volta do passado apenas pelo lado "sujo" do atraso. Mas havia também uma poética do atraso – na Lapa, no Mangue, havia um Rio que, com poucas migalhas, fabricava uma urbanidade pobre, bela e democrática.
Ele também me dava aulas de sexo. Contou-me uma vez que a melhor mulher que ele teve na vida tinha sido uma "João". Que era "João"? Esse termo, ainda escravista, designava as pretinhas tão pretinhas que tinham o pixaim da cabeça ralo, quase carecas. Eram as "João". Pois ele me disse: "Foi no terreno baldio, ali na General Belfort... foi o melhor nick fostene que eu tive..." (Inventara esse nome de falso inglês de cinema americano para designar a cópula, sendo a palavra acompanhada pelo gesto vaivém de bomba de "Flit": Nick Fostene...) Contava isso a um menino de dez anos, a quem ele dava cigarros e ensinava ( a mim e ao Cláudio Acylino, meu primo) apegar bonde no estribo, andando. Me apresentou sua amante, uma mulher ruiva chamada Celeste, que me beijava trêmula e carente como uma avó postiça e que, sendo de "boa família" ( ele me falava disso com uma ponta de orgulho), "nunca se metera em sua vida familiar oficial". Isso ele dizia com os olhos machistas molhados de gratidão. Ou seja, ele me ensinava tudo errado e com isso me salvou.
Quase analfabeto, vivera grudado com a turma dos intelectuais da Colombo, babando com os trocadilhos de Emilio de Menezes, Olavo Bilac, Agripino Grieco nos anos 20, o que lhe deu um fascinado amor às letras que não lia, mas que o fez trazer-me sempre um livro novo, da Rio Branco, junto com a goiabada cascão e o catupiry.
Uma vez, já mais tarde, eu namorava uma moça lindíssima e virgem (claro) mas burrinha. Reclamei com ele. Resposta: "Ah, é burrinha ? Você quer inteligência ? Então vai namorar o Santiago Dantas! " Quando fomos aos sinistros rendez-vous, de onde nos floresceram as primeiras gonorréias, nossos pais severos bronquearam: "Vocês são uns porcos! " Já nosso vovô riu, sacaneando: "Poxa... boas mulheres, hein... ? "
Vovô nos ensinava a conversar com as pessoas, olho no olho. Na minha família de classe média, celebravam-se as meias-palavras, o fingimento de uma elegância falsa, de uma finesse irreal. Só meu avô falava com os vagabundos da rua, com os botequineiros, com os mata-mosquitos. Enquanto minha família toda votava histericamente na UDN, em pleno delírio golpista, meu avô pegou o chapéu, e foi votar. Eu fui atrás dele... "Votar em quem?" "No Getúlio, seu Arnaldinho... ele gosta do povo e eu sou povo." "E eu sou 'povo' também, vovô?", perguntei. Ele riu: "Você não; você tem velocípede..."
Ele me levava ao Maracanã, ele me levava em seu ombro para ver a estrela de néon da cervejaria Black Princess ( até hoje me brilha esta supernova na alma), ele, uma vez, deixou-me ver um morto na calçada, navalhado no peito ( "Parecia a fita do Vasco da Gama", ele disse) – não me escondeu a tragédia. Me ensinou tudo errado e me salvou...
Meu avô adorava a vida e usava sempre: o adjetivo "esplêndido", tão lindo e estrelado. A laranja chupada na feira estava "esplêndida", a jabuticaba, a manga‑carlotinha, tudo era "esplêndido" para ele, pobrezinho, que nunca viu nada; sua única viagem foi de trem a Curitiba, de onde trouxe mudas de pinheiros. "Esplêndidas..."
No fim da vida, já gagá, eu o levava ao Jockey para ele conversar com o Ernani de Freitas, o amigo tratador de cavalos, que lhe dava um carinho condescendente com sua gagazice, falando de cavalos que já haviam morrido. "Hoje corre a Tirolesa ou a Garbosa ? ", perguntava. "A Tiroleza está machucada, Arnaldo..."
Velho gagá, deu para dizer coisas profundíssimas. Uma vez, já nos anos 70, celebrei para ele as maravilhas lisérgicas do LSD que eu tomara. Ele me ouviu falar em "delírio de cores", "lucy in the skies" e comentou: "Cuidado, Arnaldinho, pois nada é só bom..." Outra vez, vendo passar um super-ripongão sujo, "bicho-grilo brabo", comentou: "Olha lá. Um sujeito fingindo de mendigo para esconder que realmente é... !
Há dois anos, na exumação de um parente, o coveiro colocou várias caixas de ossos em cima do túmulo. Numa delas, estava escrito a giz: "Arnaldo Hess". Não resisti e levantei de leve a tampa de zinco. Estavam lá os ossos de vovô. Vi um fêmur, tíbias, que eu toquei com a mão. Vocês não imaginam a infinita alegria de, por segundos, encostar em meu avô querido. Eu estava com ele de novo em 1952, sob o céu azul do Rio.
Meu avô não era ninguém. Mas nunca houve ninguém como ele.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
SONETO DE SEPARAÇÃO
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, 09.1938
( VINICIUS DE MORAES)
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Soneto de fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Estoril - Portugal, 10.1939
(VINICIUS DE MORAES)
terça-feira, 4 de março de 2008
À BUNDA
Olha, desta vez você passou das medidas. Só não boto você para fora, agora, porque é a sua cara dar escândalo.
Estou cheia de você atrás de mim o tempo todo. Fica se fazendo de fofa, enquanto, pelas minhas costas, chama a atenção de todo mundo para meus defeitos.Você está redondamente enganada se pensa que eu vou me rebaixar ao seu nível – o que vem de baixo não me atinge. Mas faço questão de desancar essa sua pose empinada.Por que nuncaencara as coisas de frente?Fica parecendo quetem algo a esconder. Poracaso, faz algumacoisa que ninguémpode saber?
Você é, e sempre foi, um peso na minha existência – cada papel que me fez passar... Diz-se sensível e profunda, mas está sempre voltada para aquilo que já aconteceu. Tenho vergonha de apresentar você às pessoas, sabia?Por que você nunca encara as coisas de frente, bunda? Fica parecendo que, no fundo, tem algo a esconder. Por acaso, faz alguma coisa que ninguém pode saber? O que há por trás de todo esse silêncio?Você diz que está dividida e que eu preciso ver os dois lados da questão. Ora, seja mais firme, deixe de balançar nas suas posições.Longe de mim querer me meter na sua vida privada, mas a impressão que dá é que você não se enxerga. Porque está longe de ter nascido virada para a lua e costuma se comportar como se fosse o centro das atenções.Bunda, você mora de fundos, num lugar abafado. Nunca sai para dar uma volta, nunca toma um sol, nunca respira um ar puro. Vive enfurnada, sem o mínimo contato com a natureza. O máximo que se permite é aparecer numa praia de vez em quando, toda branquela.Não é de admirar que esteja sempre por baixo. Tentei levar você para fazer ginástica, querendo deixar você mais para cima, mas fingiu que não escutou.Saiba que você não é mais aquela, diria até que anda meio caída. E vai ter que rebolar para mexer comigo, de novo, da maneira que mexia.Lembro do tempo em que eu, desbundada, sonhava em ter um pouquinho mais de você. Agora, acho que o que temos já está de bom tamanho. E, pensando bem, é melhor pararmos por aqui antes que uma de nós acabe machucada.Sei que qualquer coisinha deixa você balançada, então não vou expor suas duas faces em público. Mas fique sabendo que, se você aparecer, constrangendo-me diante de outras pessoas, levarei seu caso ao doutor Albuquerque*.Lamento, isso dói mais em mim do que em você, mas você merece o chute que estou lhe dando. Duplamente decepcionada,
* A colunista refere-se ao cirurgião plástico Pedro Albuquerque, de São Paulo
(FERNANDA YOUNG)
AO ÓRGÃO RESPONSÁVEL
Caro PênisTenho notado você olhando torto para mim. Às vezes, basta eu chegar e você se levanta. Por acaso, você tem algum problema pendente comigo?O fato de nós estarmos em lados opostos não nos faz inimigos. Ao contrário, guardo um espaço especial para você, dentro de mim, e seria ótimo se pudéssemos nos unir em prol de algumas novas conquistas. Os atritos, como em qualquer relação, são normais e bem-vindos.Você me acusa de ser difícil, mas não conheço personalidade mais instável que a sua. Quando eu quero conversar, você se recolhe. Quando canso de tentar, você se anima. Quando finalmente penso entender aonde você quer chegar, você se coloca numa posição diferente.Sei que a vida talvez lhe pareça mais dura, já que é de você que são cobrados rendimento e desempenho. Mas o mundo não gira em torno da sua existência como você pensa. Diria até que, nas horas mais tensas, você sempre dá um jeito de ficar de fora. Até no momento em que sua participação se faz mais necessária, a continuidade da espécie, você se limita a entrar com metade da matéria-prima e deixa o resto para lá.Dizem que eu tenho inveja de você - mas inveja de quê, afinal? Você, desculpe, está longe de ser bonito. Trabalha num ramo de atividade sem o mínimo charme: a remoção de detritos. Mora num lugar abafado, onde o sol nunca bate. Freqüenta locais escusos, de reputação duvidosa, em busca de um tipo de divertimento que já se encontra à mão, em sua própria casa. E aquele seu melhor amigo, convenhamos, é um saco.Mesmo assim, quero frisar, tenho por você imensa consideração e simpatia. Mais que isso - sempre busquei a sua aprovação de alguma forma, atrás de sinais de que estaria lhe agradando. Você, por sua vez, nem sequer disfarça seu completo egocentrismo. Fazendo-se de sonso e sumindo após satisfazer as suas necessidades.Você se diz sensível, porém jamais se preocupa com o que o outro está sentindo. Quer apenas ocupar o seu espaço e atingir as suas mesmas velhas metas de crescimento. Deveria tentar aumentar suas expectativas, ampliar seus horizontes, investir na sua cultura. Qual foi a última vez que você viu um filme decente?Sei que dificilmente vou conseguir abalar sua enorme auto-estima, mas, sob o meu ponto de vista, você não passa de um solitário, perdido em sonhos impossíveis e cercado por uma situação bastante enrolada. Acha-se o máximo, superextrovertido e revela-se um bobo alegre com pinta de seboso. Um cabisbaixo baixinho carente, o tempo todo em busca de qualquer carinho.Disponho-me a ajudá-lo, colega, caso você reconheça seus defeitos e fraquezas. Posso até te indicar um bom analista. Somente recuso-me a continuar a ser cúmplice na perpetuação de um equívoco.Você não é melhor que ninguém, temos o mesmo tamanho nesta história - de fato, se você cabe em mim, sou necessariamente maior do que você.
(FERNANDA YOUNG)
AO SONO
Ontem, mais uma vez, esperei horas e você não veio. Hoje, passei a manhã inteira irritada por causa disso. Aí, você me chega depois do almoço, sem a menor explicação, como se isso fosse normal. Eu cheia de coisas para fazer e você querendo me levar para tomar um café. Está querendo acabar comigo, é isso?Uma amiga minha me abriu os olhos: nós dois estamos vivendo uma relação doentia. Eu estou me sujeitando aos seus horários e você está desrespeitando os limites. Não é porque eu vou para a cama com você que eu deixei de chefiar o órgão onde você exerce a sua função.Você tem faltado muito e estou cansada disso. Quando não falta, demora para chegar e vem disperso, agitado, não ajudando em nada. Eu preciso de você tranqüilo, cumprindo seu dever, todos os dias, oito horas por dia, igual a todo mundo. Ou não posso garantir o bom funcionamento da nossa unidade.Sono, sinceramente, qualquer probleminha que surge, você some. Tudo serve de desculpa para você não aparecer: uma conta para pagar, uma viagem de negócios, um caso de doença na família. Por mais que eu não queira te prejudicar, não posso agüentar um sono assim, tão inconstante.A partir desta noite, não quero mais nenhuma irregularidade sua. Não estou exigindo que você seja perfeito, mas, na próxima vez que eu tiver de remediar alguma ausência de sua parte, vou tomar medidas extremamente fortes. E não me importam as reações. Desejo uma convivência leve e sadia entre nós, mas prefiro ter você sempre pesado do que sofrer as conseqüências da atual situação.Não posso entender por que você mudou tanto. Lembro das agradáveis noites que passamos juntos - você eventualmente profundo, muitas vezes superficial, mas sempre presente em minha vida. Mesmo durante o dia, você dava um jeito de estar ao meu lado quando eu ficava deprimida, de cuidar de mim quando eu ficava com febre, de aliviar meu stress quando eu trabalhava demais.Agora, quase nunca posso contar com você. Você só aparece quando bem quer e quando eu menos preciso: num cinema, numa festa, num restaurante. Sua presença, antes tão gratificante, ultimamente só serve para me atrapalhar. Você jamais consegue estar comigo nas horas importantes, tem sempre algo complicado impedindo-o de chegar; mas sei de outras mulheres que dormem com você sem a menor dificuldade. Liguei para uma colega minha, noite dessas, para reclamar de mais uma das suas fugidas, e ela teve o desplante de dizer que não podia falar comigo porque estava na cama com você.Enfim, estou com olheiras, e é por sua culpa. Mas sei que necessito dos seus serviços, então lhe dou este ultimato. Ou você toma jeito e volta a me deixar em paz ou você afunda junto comigo.Atenciosamente.
(FERNANDA YOUNG)
domingo, 10 de fevereiro de 2008
QUADRILHA
João que amava Teresa
que amava Raimundo
que amava Maria
que amava Joaquim
que amava Lili que não amava ninguém
João foi pra os Estados Unidos,
Teresa para o convento
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se
e Lili casou com J.Pinto Fernandes
que não tinha entrado
na história.
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
Quase
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda,que me entristece,que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga,quem quase passou ainda estuda,quem quase morreu está vivo,quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos,nas chances que se perdem por medo,nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me,às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna;ou melhor,não me pergunto,contesto.A resposta eu sei dar de cor:está estampada na distância e frieza dos sorrisos,na frouxidão dos abraços,na indiferença dos 'Bom-dias',quase que sussurrados.Sobra covardia e falta de coragem até pra ser feliz.
A paixão queima,o amor enlouquece,o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor,sentir o nada.Mas não são.Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo,o mar não teria ondas,os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina,não inspira,não aflige nem acalma,apenas amplia o vazio que cada uma traz dentro de si.
Não é que a fé mova montanhas,nem que todas as estrelas estejam ao alcance.Para as coisas que não podem se mudadas,resta-nos somente paciência;porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão;pros fracos,chance;pros amores impossíveis,tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque,que a rotina acomode,que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.Gaste mais horas realizando que sonhando,fazendo que planejando,vivendo que esperando,porque,embora quem quase morre estaja vivo,quem quase vive já morreu.
(Sara Westphal)
Por que no Brasil não há terrorismo
Documentos mantidos em sigilo pela Polícia Federal revelam que a Al Qaeda,organização terrorista de Osama Bin Laden,ordenou a execução de atentado no Brasil.O alvo da ação seria a estátua do Cristo Redentor,localizada no alto do morro do Corcovado e um dos símbolos mais conhecidos do Rio de Janeiro,tanto no Brasil quanto no exterior.
De acordo com informações obtidas em Brasília,a ordem de Bin Laden decorreu do ódio que o saudita nutre por festas monumentais,como o carnaval carioca,para ele 'um símbolo da globalização da sem-vergonhice'.Demolidor de ídolos e iconoclasta como os talibãs que explodiram estátuas de Buda no Afeganistão,ele destacou dois mujahedins para seqüestro e uso de avião,que seria lançado contra a estátua,a seu ver 'símbolo dos infiéis'.
Os registros da Polícia Federal dão conta que os dois terroristas chegaram ao Aeroporto Internacional Tom Jobim em 22 de setembro,domingo,às 21:47h,no vôo da Air Canadá procedente de Montreal,com escala em Miami.A missão começou a sofrer embaraços já no desembarque,quando a bagagem dos mulçumanos foi extraviada.Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichês e dificuldade de comunicação em virtude do inglês fortemente marcado por sotaque árabe,os dois saíram do aeroporto,aconselhados por funcionários da Infraero a voltar no dia seguinte,com intérprete.
A Polícia Federal investiga a possibilidade de eles terem apanhado um táxi pirata na saída do aeroporto,pois o motorista percebeu que eram estrangeiros e rodou uma hora e meia,dando voltas com eles pela cidade,até abandoná-los em lugar ermo na Baixada Fluminense.No trajeto,ele parou o carro e três cúmplices os assaltaram e espancaram.Eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondidos em cintos próprios para transportar dinheiro e pegaram carona num caminhão que entregava gás.
Na segunda-feira,às 7:33h,graças ao treinamento de guerrilha que receberam nas cavernas do Afeganistão e nos campos minados da Somália,os dois terroristas conseguiram chegar a um hotel de Copacabana.Alugaram um carro na Hertz e voltaram ao aeroporto,determinados a seqüestrar logo um avião e jogá-lo bem no meio dos braços abertos do Cristo Redentor.Enfrentaram um congestionamento monstro por causa de uma manifestação de estudantes e professores em greve e ficaram três horas parados na avenida Brasil,na altura de Manguinhos,onde seus relógios foram roubados em um arrastão.
Às 12:30h,resolveram ir para o Centro da cidade e procuraram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares.Receberam notas de cem reais falsas.Por fim,às 15:45h chegaram ao Tom Jobim para praticar o seqüestro.Os pilotos da Varig estão em greve por mais sálario e menos horas de trabalho.Os controladores de vôo também pararam (querem equiparação com os pilotos).O único avião na pista é da Vasp,mas está sem combustível.Foi fretado pela Soletur.Aeroviários e passageiros estão acantonados na sala de espera e nos corredores do aeroporto,tocando pagode e gritando slogans contra o governo.O Batalhão de Choque da PM chega batendo em todos,inclusive nos terroristas.
Os árabes são conduzidos à delegacia da Polícia Federal no aeroporto,acusados de tráfico de drogas,em face de flagrante forjado pelos policiais,que plantaram papelotes de cocaína nos bolsos dos dois.Às 18 horas,aproveitando o resgate de presos feito por um esquadrão de bandidos do Comando Vermelho,eles conseguem fugir da delegacia em meio à confusão e ao tiroteio.às 19:05h,os mulçumanos,ainda ensangüentados,se dirigem ao balcão da Vasp para comprar passagens.Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os vôos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado.Eles,então,discutem entre si:começam a ficar em dúvida se destruir o Rio de Janeiro,no fim das contas,é um ato terrorista ou uma obra de caridade.
Às 23:30h,sujos,doloridos e mortos de fome,decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto.Pedem sanduíches de churrasco com queijo e limonadas.Só na terça-feira,às 4:35h,conseguem se recuperar da intoxicação alimentar de proporções eqüinas,decorrente da ingestão de carne estragada usada nos sanduíches.Eles foram levados para o Hospital Miguel Couto,depois de terem esperado três horas para que o socorro chegasse e percorresse diversos hospitais da rede pública até encontrar vaga.No HMC,foram atendidos por uma enfermeira feia e mal-humorada.
Eles teriam de esperar dois dias para serem examinados,se não fosse pelo cólera causado pela limonada feita com água contaminada por coliforme fecal.Debilitados,só terão alta hospitalar no domingo.
Domingo.18:20h:os homens de Bin Laden saem do hospital e chegam perto do estádio do Maracanã.O Vasco acabara de perder para o Bangu,por 6x0.A torcida cruzmaltina confunde os terroristas com integrantes da galera adversária e lhes dá uma surra sem precedentes.O chefe da torcida é um tal de Pé de Mesa,que abusa sexualmente deles.Às 19:45h,finalmente,são deixados em paz,com dores terríveis pelo corpo,em especial na área mais delicada.Ao verem uma barraca de venda de bebidas nas proximidades,decidem se embriagar uma vez na vida,mesmo que seja pecado.Tomam cachaça adulterada com metanol e precisam voltar ao Miguel Couto.
Segunda-feira,23:42h:os dois terroristas fogem do Rio escondidos na traseira de uma caminhão de eletrodomésticos,assaltado horas depois na Serra das Araras.Desnorteados,famintos,sem poder andar e sentar,eles são levados pela van de uma ONG ligada a direitos humanos para São Paulo.Viajam deitados de lado.
Na capital,perambulam o dia todo à cata de comida e por volta das 20 horas acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja na rua Aurora,Centro.A Polícia Federal não revelou o hospital onde os dois foram internados em estado grave,depois de espancados quase até a morte por um grupo de mata-mendigos...
(Autor Desconhecido)
domingo, 27 de janeiro de 2008
Ainda que mal
¨ Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insita,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor. ¨
(Carlos Drummond de Andrade)
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